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Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

22.Abr.18

Falling apart

Quando comecei a escrever não sabia o porquê de o fazer. Não reconhecia a sua utilidade pois tudo o que apresentava no papel mostrava apenas a mim mesmo. Nada fazia sentido, e, ao invés de ser uma só vez louco por ter os pensamentos que tinha, era-o duas vezes por ler o que me saía da alma. 

Até hoje pouca diferença sinto ao me expor cada vez mais, ao mostrar aos poucos quem realmente sou, ou quem gostaria de ser. Para minha surpresa é exatamente o oposto que tinha pensado do que aconteceria. Fiquei ainda menos compreendido, mais afastado. Quem eu estou a ser é uma fachada, um corpo ambulante que todos pensam que contém o meu interior. Quem eu realmente sou está escondido na sombra desse mesmo individuo, oculta, que não demonstra a sua verdadeira presença e apenas acompanha todo o processo a que está sujeita.

Durante muito tempo questionei em que lado estava. Se no dos vivos, onde sou e sempre fui o rapaz humilde com poucas ambições. Com um desejo maior do que o mundo e que nem estaria incluído em tal grandiosa conquista pois não me achava digno de viver dessa forma. Se no lado adormecido, oculto pela minha pessoa para nada se revelar da minha verdadeira natureza.

Quem sou eu para dizer qual seria o lado supostamente errado que deveria afugentar? Dele retiro toda a força e frieza que às vezes admiro, que me pressiona para continuar aqui a escrever, não ligando para sentimentos ou pesos na consciência, apenas apresentando palavras cruas que fingem o que sinto. Que não me oferece a tristeza alheia. Que oculta relações fortes para se manter firme perante as dificuldades que delas resultariam... Nada disso me deixa orgulhoso, mas não posso negar a satisfação que é ser-se frio e conseguir observar o ciclo da vida percorrer o seu fado sem questiona-lo.

Não sinto ódio por ninguém, pelo menos não entre os vivos. Raiva, repulsa, tudo o que encontro de errado é agora comigo por não conseguir senti-lo pelos outros. Tanto são os sentimentos bons como os maus que se desvanecem e me deixam sem propósito. Não peço para odiar ninguém, fi-lo uma vez e só lhe consegui retirar uma lição. Paciência.

Tal «atributo» que prezo pois acredito que estaria a sofrer em vão se não o tivesse. Parece que foi com ódio que se formou a minha personalidade. Também é a falta dele que me faz sentir incompleto. Não que o queira sentir, ou que sequer lhe sinta necessidade, mas faz parte de ser humano tanto sentir o bem como o mal. E eu não sinto nenhum dos dois. A repulsa desvaneceu-se, ofuscou-se e tornou-se inútil continuar a fazê-lo. O amor nunca o senti de verdade, também esse se esconde e foge quando o tento chamar.

Triste é eu conseguir viver assim. Muitas vezes desejá-lo até. Mais triste ainda é saber que a vida não passa disto, mentiras, ilusões, falsos amores e promessas. No fim tudo se desmorona, com nada ficamos para nós ou aqueles que fizeram parte da nossa vida. Não consigo ver a vida de outra forma, apesar de já o ter feito. Quanto mais a realidade me é apresentada mais eu encaro a vida dessa forma. Sem o preto e o branco. Sem o cinzento do nosso lápis. Com nada girando da forma que realmente gostaríamos e termos que viver de acordo com o que se conseguiu até agora. Nada disso me liberta das correntes da vida. A cada dia mais pesadas, com menos propósito de continuar a carrega-las quando a chave para nos soltarmos delas e voarmos livres está no nosso bolso.

É por isso que agradeço a todo o ódio que senti até ao dia de hoje, pois foi ele que me fez chegar aqui. Paciência, foi o que consegui dele. 

Um dia sei que vai acabar. Mas só quando esse dia chegar é que então entregarei as minhas chaves, e assim, depois de saber que me pertence tal liberdade, sentirei o vento no rosto como sempre o quis sentir. Serei livre da forma como o sonho ser, no dia em que esse dia acontecer.

Escrever era suposto ser algo que me fizesse compreender melhor quem eu sou. Mas a cada palavra que escrevo aqui afasta-me mais ainda de realizar esse feito. Ao gravar cada palavra, cada sentimento por detrás dela, não me pertence ela/ele mais. Aos poucos vou-lhes perdendo o sentido até que me esqueço do verdadeiro significado de que lhes atribuí. Chega ao ponto em que nem faz sequer sentido continuar a escrever pois perco-me ainda mais ao invés de me encontrar.

Nisto tudo continuo. É a minha frieza a escrever, não se importando se compreendo ou não e o porquê de estar a ser feito. Apenas me força a continuar a fazê-lo, despedaçando aos poucos o que ainda consigo sentir, até nada sobrar.

 

É com esta dúvida que me questiono sempre em que lado estou realmente eu. Pois a paciência se juntou aos dois, como numa posição neutra equilibrando assim o jogo. Não poderei levar ambos avante, pois nesta vida finais só há um. Aguardei neste misto de confusões tentando descobrir que lado viria à tona, que se opunha. Mais que isso forcei o que achava correto a fazê-lo. Parece que alterei o equilíbrio das coisas e quem tanto aguardou está a conseguir o que tanto queria....

Mas isto sou aqui eu... a cair aos pedaços.

 

 

 

 

20.Abr.18

Escrever à chuva

Conhecem aquele lema em que para se ser feliz temos que sofrer primeiro? Pois bem, não é mentira nem verdade. Porque haveria de ser só a verdade? Só sendo tristes é que reconhecemos a felicidade? Ou se estivermos felizes não o podemos ser mais ainda?

Ou porque deveria de ser apenas mentira? Não é quando estamos tristes que, apesar da tristeza, conseguimos sobrepormo-nos a essa situação com um sorriso?

Enfim, a realidade é que ajuda muito estarmos em baixo para sermos subjugados pelo sentimento oposto. E quase sempre é recitado essa frase ao se atravessar um estado malicioso para o nosso bem estar. Quando estamos felizes não queremos pensar na dor que passamos para lá chegar. Não existe a expressão ''para seres triste, tens que ser feliz primeiro'', até porque essa seria mais mentira que verdade...

Se a dor ou a tristeza é positiva para a angariação da felicidade, porque a ignoramos ou queremos evitar o seu estado? Porque é tão mau estar-se mal? Que olhares são os que me rodeiam, quais pensamentos negros os têm que me fazem arrepiar quando os sinto? Que frio é este que sinto percorrendo o calor da minha tristeza? É assim que realmente ela me atinge de formas que não a aceito. Que me faz sentir mal por estar num estado tão desprezado pela sociedade. 

Mas esta tristeza é minha, não a vossa para a julgarem, para lhe acusarem que não está correta. E porque estaria a vossa felicidade, então? Que razões são realmente as que vos deixam nesse estado? Mentiras muitas delas, ilusões as restantes. Porque é então o meu desprezo pela vossa falsa felicidade considerado já um ataque? Porque não posso eu ser imparcial perante a felicidade, se vocês nem sequer aceitam a tristeza? Eu não vos julgo, ou se o faço é apenas para mim. 

''Está tudo bem?'' claro, aconteceu alguma coisa má para não estar? ''Ah, mas (bla, bla, bla)...'', huh, huh. Que vontade é a vossa de me mostrar o que já eu sei? O que eu faço e sou? Porque está errado só porque não vos parece normal? O que queriam que estivesse a fazer? A ser como todo o estereotipo de pessoa relativamente a diversas ações?

Não sou. Peço desculpa a ninguém porque até agora não vos ofendi do modo como vocês vivem a vossa vida. 

Não me acho o máximo do tipo ''sou diferente'', porque iguais a mim são toda a gente. Eu apenas decidi que lado escolher para realizar esta travessia que é a vida. Não foi o mais bonito, mas eu também nunca fui muito charmoso anyway. Escolhi optar pela deceção, pelas baixas expectativas, pela falta de à vontade social (não escolhi, isso foi um efeito secundário). Optar pela tristeza profunda e negra para assim observar a luz do que for que a consiga emitir e assim apreciar todo o seu brilho. Não me influenciando pela infelicidade dos outros. Não captando as más influências que não me despertam nem de um sono leve quanto mais perturbar a negritude do meu interior com tão fraca iluminação artificial com que ofuscam muita gente.

Não escolho caminhos iluminados pois nenhum me desperta a curiosidade assim como a necessidade que tenho de viver nas sombras. Conseguiria me retirar deste estado algo que não escolhe ser feliz ou triste. A vida livre e espontânea.

Queria que o único olhar fosse o meu para mim mesmo, e observar todas as cores que o preto não reflete e deixa ficar, assim renascendo a minha felicidade.

 

 

 

Então assim termino, escrevendo sob esta chuva salgada que me lava o rosto cansado, que me percorre os lábios sorridentes, que pinga da minha face atravessando todo o meu corpo até encontrar o solo que germina todo o meu ser.

 

 

09.Abr.18

Força de (pouca) vontade

Algo que sinto muita raiva de mim mesmo é da minha falta de motivação para praticamente tudo. Não sei explicar porque sou assim, nem como me tornei; mas não sei mesmo se fiquei assim ao longo do tempo ou se já nasci com este defeito. Penso ser mais a segunda hipótese porque mesmo em pequeno não me lembro de ser assim tão extraviado e social para considerar que agora seja menos. Sempre fui pouco, essa é que é essa. E não vejo grandes alterações nesse feito para o futuro (até porque não o prevejo, por isso não vejo mesmo é nada). É algo que irá ficar na minha pessoa e que o costume de ser assim já foi conseguido e deambula aqui dentro com tudo o resto.

Mas estar acostumado com a dor não faz ela parar de causar sofrimento. Esta minha situação é igual. Se gosto de ser pacato? Até que sim. Paz e sossego são duas palavras maravilindas e que aprecio muito os seus significados. Sinto-me um monge com uma mistura de hippie (mas sem as drogas) que aprecio melhor o silêncio ou os sons ambientais que muitas vezes conversas ou mesmo músicas. Mas até aí tudo bem, personalidades todos temos uma diferente e até que não desgosto da minha (isso porque não escolhemos a nossa personalidade, claro que lhe mudaríamos alguma coisa, mas somos assim porque nos tornámos assim). A nossa posição natural para com as coisas nos moldou para sermos o que somos agora. Se alguma decisão foi tomada com base em influências (não confundir com escolhas) então não fomos nós a fazê-la.

Para ser sincero, se não vivesse em sociedade acho que não iria sentir a falta, ou mesmo a necessidade dela. Isto porque sociedade hoje em dia já não é nada do que seria de se esperar do significado dessa palavra. Tribos indígenas, ou aborígenes, chamando-lhes nós de retrogradas, são eles que sim trabalham para um bem comum. Que socializam e se interligam de uma forma mais pura ao significado real das palavras. A proximidade que têm em relação à natureza reflete-se no estilo de vida mais primitivo, mais natural, mais real em que vivem.

O que me cansa de ser quem sou é isso mesmo. Ter que viver às leis da sociedade e não com as da vida. Sonhar com a simplicidade e esse pensamento se tornar complexo, não aguento! Na vida pouca coisa quero, mas para ter o tão pouco que ambiciono terei que passar por muito. O mundo de alguma forma começou a rodar ao contrário. Não se montam mais peças de um puzzle, encaixando uma a uma, mas sim encontramo-lo inteiro e a nossa função é retirar-lhe a sua composição. Não existe mais muita liberdade para sermos nós a escolher que peças utilizar, que estratégia escolher, que planos tomar. Não. Tiramos peça a peça, e no final estará completa a nossa tarefa. Sem originalidade, sem ambições, sem progresso ou conquista. Simplesmente seguindo o imposto pela sociedade.

Não me motivo com a vida. Não sonho muito alto, até que não é ambições no sentido desfigurado da palavra em que baseio os meus sonhos. Chamo-lhe ambição pois é algo que não vejo acontecer e que quero muito. Ambição porque significa chegar a algum lado, não que seja uma posição famosa ou sinónimo de riqueza, mas sim algo que desejo. 

Não consigo me mover sabendo que não conseguirei alcançar tal façanha. O meu cérebro foge para o seu refugio, o meu corpo não o deixo eu ainda fazer. Tenho uma outra vida em sonhos. Pouco mais da minha pessoa vejo neles, que vivo neles. É tudo tão nada, tão surreal que acredito que se comparasse ao estilo de vida atual consideraria que os meus sonhos são mais reais que a realidade. Mais puros nos significados. Onde felicidade não requer sofrer primeiro. Onde sonhar não requer estar inconsciente. Onde paz não envolve haver guerra primeiro. Onde viver não nos faz pensar na morte.

Como conseguirei alcançar tal ambição se o mundo em que vivo é este? Porque sou julgado por pensar assim sendo que mais nada me ocorre para ainda ter esperança? (...)

O que ainda consigo fazer é sonhar que um dia poderá ser diferente. Não vou desistir da vida sabendo que ainda faço parte dela. Não me oferecerei à morte enquanto tiver forças, nem que sejam apenas para sonhar!

Uma pessoa não consegue andar mais que o seu sonho, mas definitivamente cada passo que der será real.

05.Abr.18

Escrever

Aqui mais uma vez me encontro, entre o lápis e a folha de papel.

Não peço para estar nesta situação, mas, francamente, não encontro nenhuma melhor para ficar. Sinto um desconforto confortável, um peso suportável, a vida e a morte.

Este peso que carrego é apenas o do lápis com que aqui rabisco. O desconforto que sinto é apenas força-lo (o lápis) a escrever o que me vai por dentro. Sobre a vida e a morte ainda nada sei, mas que o anote quando fizer pois estou ansioso por conhecer tamanha contradição que guia tudo o que vai no mundo. 

Até agora tenho percorrido esse rumo, sem ambição, sem desejos. Concluí que tal coisa é um atalho, mas é apenas um atalho para deixar de viver.

Observar me mostrou muita coisa, ler me ensinou outras quantas, escrever, isso me mostrou o quanto já aprendi.

Nunca me envolvi o suficiente com a vida para a achar apetecível, por mais que o diga a mim mesmo, as palavras não têm voz para me fazer mudar de opinião. Muito menos músculos para me forçar a segui-las. Não, isso não conseguem. Tenho que escrever noutro tipo, de outra forma. Não são palavras que me conseguem mudar, sei isso da pior forma, porque, na verdade nunca consegui aconcelhar ninguém, muito menos a mim mesmo.

Observo os meus erros e escrevo-os. Iludo-me nas minhas questões e aponto-as. Tudo isso para no fim conhecer-me.

É verdade que falo pouco, nada algumas vezes, mas também de nada adianta se não me oiço a mim mesmo. Grito, bem alto, para me fazer ouvir, mas de nada serve. Não sou surdo mas sim egoísta. Quero a minha voz para mim. Selei-a para não conseguir sair, para me pertencer e ser pura desse jeito.

Tantos erros que cometi por não quebrar tal selo. Pensei que a voz me chegaria mesmo assim, mas nem eu a consigo ouvir. Nem me lembro da última vez que o fiz.

Agora receio que tipo de pessoa falará, como reagirá depois de tanto tempo presa. Como receberá a vida que percorreu de olhos vendados. Até de mim tenho medo quando conseguir novamente me ouvir, a voz que tenho ignorado. Tanta raiva, tanto ódio, por vezes senti-o a apoderarem-se de mim, mas depois consigo esquecer tudo e nem palavras se revelam escritas nessa altura.

Nesses momentos vagueio num limbo, calmamente, adepto da escuridão que ele oferece. Pois assim não tem nada para me mostrar ou dizer, apenas solidão. Não preciso de fechar os olhos, nem tapar os ouvidos, porque, até agora, tudo o que faço é escrever.