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Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

30.Mar.19

Fará a poesia um homem

Fará a poesia um homem

Erguer-se nos dois membros

E gritar aos sete ventos

Os seus sonhos que nas estrelas dormem?

 

Choverá tristemente o céu

Aquando numa relação o amor termina,

Ou associa o homem o breu

À sua história, contada através de lágrimas derramadas numa infortuna página?

 

Correrão todos os rios vindos de imaculadas nascentes

Por onde bebem os homens o seu engenho e arte?

Se não, onde de imaginação se abastecem estes, navegando pujantes 

Das nascentes ao mar, erguendo alto o seu estandarte!

 

Fará a poesia um homem 

Delirar às palavras que se passam por antíteses e metáforas

Ou fundo no seu ser sabe onde as suas âncoras

Largar, derivando levemente entre as ondas que se espumem?

 

Faz o homem tudo sorrir e chorar,

Tudo sentir e falar;

Um mundo ao mundo dar

Apenas com palavras num olhar!

 

Fará a poesia um homem,

Ou nasce poeta tudo o que cria?

26.Mar.19

...

Falham-me as palavras para aquilo que desejo realmente escrever. Ou que verdadeiramente sinto. Tanto escrevi acerca do que não acontecia, que parece tudo ter realmente deixado de acontecer. Memórias, não tenho. O meu passado são vidas que não vivi, repleto de todas as sensações que não senti. É ele um espaço vazio, vazio esse que sou eu. Deixei de viver...

Passo os dias a passar os dias, e as noites a observar quantas estrelas tem o céu. O que surge entre a passagem e a contagem, são vultos ou miragens... O mundo não altera a sua rotação - As estrelas são aos milhões.

É interessante, não obstante, ler as estrelas - A história do universo sendo contada através de palavras celestiais. Não há qualquer reprodução que faça jus à natureza. Nem qualquer homem tão ancião ou sábio como a existência! Ah! O tempo... Passa com tudo por dentro. Engraçado como se aguenta.

Quero ser mais que uma palavra que o mundo cuspiu. Mais do que uma alma que a história encobriu. Gostaria de passar como o tempo, estando ele certo a todo o momento. Ele sabe sempre quem é, e o que leva, o que ambiciona e o que despreza... Eu arrasto-me com a força do vento - Sei lá eu o que sou que voa, o que raios levo, o que quero ou menosprezo... Sei. Nada de nada, só que sei isso, e algo mais visionava pois sei que a vida demanda um propósito ao abraçar-nos o espírito, oferece-nos ela uma obrigação estipulada - ''Vive!'' E eu não queria realmente mais nada. Mas que mente danada que eu tenho. Quer viver no tempo em que não se fez, quer sentir a sensação que se desfez, cheirar as flores que já murcharam... Quer a vida passada... E eu não sei o que viver agora. Nem para que o faço.

Não sei o que mudar, pois não sinto nada! A paz interior que levo é enorme, como se fosse este um estado benéfico para se estar. Estou cansado da passividade com que passo a revolta dos dias. Cada um um fardo, um peso que os sonhos retiram e que de dia retorna novamente, retirando-me a magia do olhar.

 

... 

 

Estou cansado de não saber de nada...

 

 

08.Mar.19

Degraus de mentira

Jazem moribundos homens pelas estradas, se não já defuntos;

Escorrendo-lhes o sangue encarnado ainda quente das veias pavimentando os passeios.

Saindo-lhes pelas gargantas, petróleo negro - alcatroando assim a trilha

Onde pés bem calçados se fazem aventureiros.

 

Caminhando entre florestas de cadáveres - Onde réstias da sua existência apenas em lembranças ou fotografias de outros tempos se encontra,

Estendem-se pela vista afora todo o tipo de seres

Aprisionados de cabeça para baixo:

¡oıɹɐɹʇuoɔ oɐ opunɯ ɯnu ǝssǝʌıʌ

Deixem as máquinas sentir e fazer

Pois coitado do homem, ficou cansado de viver.

 

Pobres criaturas que por aqui ainda vagueiam...

As mulheres de entranhas abertas

Entre os becos mais imundos das ruas se encontram

Sorrindo aos transeuntes, exultando as pernas à vista,

(Escondendo as lágrimas com as mãos, limpando-as assim que terminado o dia...)

Às luzes, crianças roubando a juventude

Encobertas entre fumos venenosos e perdidas entre olhares.

- Escolhem onde por o pé, na calçada que lhes é apresentada.

 

Nos mais altos e iluminados palcos,

Caminhando entre as passerelles fabricadas de doentios sonhos juvenis,

Desfilam esqueletos ou auto proclamados artistas.

 

Nos estrados teatrais, ofuscam as luzes e os brilhos a plateia

Que assiste a uma realidade alterada da existência:

Por detrás dos panos, trocam-se os adereços, as máscaras,

De pele e mesmo de vida...

Nada quebrando o ribombar de palmas que se aviva, quando se sobem os panos!

Assim se sobe degraus, numa ilusória escada visível.

 

Ouviu-se um grito, uma vez.

Ah! e o quanto ecoou ele, nesse dia!

Morreu tal alma primeiro que a sua própria voz,

Um segundo, e já não existia...

 

03.Mar.19

A noite

O quão fascinante o mundo se revela

Iluminado por um qualquer lampião de jardim.

Os insetos incansavelmente batendo no vidro,

Criando à distância um quê místico em redor da luminosidade.

O poste negro, camufla-se entre as sombras criadas,

Escondendo-se da luz produzida, estagnado ficando no mundo das trevas.

Os murmúrios, contudo, não cessam, e a luz tirita, esforçando-se por manter-se acesa.

A noite dorme de dia.

 

Relembra-se dos dias de outrora,

Das ruas retilíneas quais flautas de bisel

Onde em cada esquina soprava o vento

E sons se produziam:

O musical da vida!

Do pequeno lago que ali se centrava,

Um inegável feito celeste onde as águas eram os céus

E as estrelas, reflexos quebrados da lua.

 

Alguns transeuntes aventuram-se onde a visão não lhes chega,

Iluminados aqui e acolá entre a luz e o negro dos candeeiros

Calcando o chão mal iluminado a receio, talvez, de desabar por inteiro...

A calçada é idosa, muitas histórias já carrega de iluminados ou visionários,

De escândalos e descalabros.

As crianças, essas ignoram o tempo e as coisas

E é de dia que o sol lhes ilumina os passos:

Não receiam essas ser avistadas, quando o mundo assim as obriga.

 

Mas que dizer dos tempos que já no tempo se guardam?

Encaixotados nas mais altas prateleiras da existência,

Inacessíveis à juventude, que de bicos de pés estendem-se em debalde,

Ou aos adultos, que lacrimejadas leem as palavras, do tempo em que foram algo...

A fuga constante de si mesmos entrega todos à demência...

Leva crianças a passear nas soturnas ruas,

A encontrar uma realidade indesejada, mesmo para aqueles que nela pegam.

Hoje o sol não dá mais lugar à vida...

A noite dorme de dia.