Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

01.Fev.18

Francisco Pessoa

Sim, este não é o Fernando. Nem sei como viralizou tanto esse nome. Ou melhor, esta expressão: «És o Fernando?». Pois sei a origem, só não compreendi muito foi a sua propagação.

Enfim, também não sou Pessoa, já que esse não é o meu apelido. Porquê assim, então? Pois pessoas somos todos (com os seus limites genéticos, claro). Fi-lo dessa forma porque é inspirado nele mesmo, Fernando Pessoa, que irei escrever este meu texto.

Inspirado mas não sobre, tenham em atenção. Pouco sei de mim, quanto mais de alguém para escrever a respeito.

O que irei abordar é então a polémica dupla-tripla-quadrupla... (quantas eram mesmo?) personalidade de alguém que de ironia do destino possuía a singularidade nele mesmo; no próprio nome. Se se chamasse Fernando Pessoas, ou, (As) Pessoas do Fernando (Pessoa) - (títulos deveras interessantes para escrever um livro sobre este ícone da literatura portuguesa) - até afirmava ser um nome mais compreensivo relativamente à «pessoa» em questão.

Mas chega de trocadilhos, já que de compreensível provavelmente será tudo menos o que esta composição irá se revelar.

Vou então começar a apresentar o porquê de escrever eu sobre/inspirado em Pessoa. Não me recordo atualmente quando foi apresentado o poeta nas aulas de português, (porque sim, foi de lá mesmo que o conheci) mas o que não me esqueço foi como me senti ao fazê-lo.

Acredito que, pelos textos que podem ter revirado a meu respeito, consigam compreender um pouco sobre a minha reação. Não a respeito de escrever com diversas personalidades (no caso de Pessoa), mas o de tentar ser todas! (no meu...)

Quando mais novo (agora não penso tanto nisso), sentia-me incompreendido. Era uma sensação de não fazer parte deste mundo, de que tudo o que acontecia não precisava da minha influência. É daqui que vinha a minha tentativa de me adequar a tudo. Criava em mim (ou assim pensava) alguém que pudesse fazer parte do mundo todo. Era nessa tentativa que interiormente possuía tanta vida, mas que cá de fora, assemelhava-me a uma estátua com sentimentos. Com eles, sim, mas sem a capacidade de expressar algum.

Devido à minha insatisfação julguei que a felicidade procurava-se. Que era algo que fossemos desenvolvendo ou trabalhando para lá alcançar. É então que sou apresentado a Alberto Caeiro.

Homem que de sabedoria teve muita por apresentar pouco conhecimento. Afirmava (Alberto Caeiro) que a felicidade não se encontrava. Não é algo que se procure, e muito menos que se sente. Como? Sim. A felicidade ao se sentir está no nosso consciente que assim nos encontramos, felizes. Mas, conhecer a felicidade, ou melhor, saber que se está feliz, não nos proporciona realmente a satisfação dela.

É então que a felicidade se torna algo, não inalcançável, mas inconsciente.

«Gostava de ser feliz sem saber que o era»

Como é então uma impossibilidade, vou então apresentar um outro conhecido (assim espero) nosso, Ricardo Reis.

Se o sentimento para ser realmente sentido não o podemos verdadeiramente demonstrar, então, não o façamos!

Para não viver uma vida de desgosto, vivemo-la sem a causa dele. Assim Ricardo Reis seguia a sua ideologia. As suas paixões não eram mais que a demonstração da sua presença e da sua amada. Não viver o amor pois se o perdesse não deixava para trás sofrimento na pessoa que com ele ficou.

Assim nos mostrava então que sentimentos, por nunca se revelarem úteis ou prazerosos, deixasemo-nos deles. O destino está traçado e a mudança é escusada. Assim, com ausência de sentimentos fortes, não nos relacionávamos com este mundo a um ponto de sentir dor ao perde-lo. Era então a sua forma de ultrapassar este fado.

Contraditoriamente apresentou-se Álvaro de Campos. A revolução (industrial), as mudanças, os acontecimentos, tudo o fascinava. Ao invés de esconder os seus sentimentos, tinha e queria tê-los todos de uma vez! As maquinarias, os novos tempos, tudo era de vasta admiração para ele. Aceitou com todo o seu sentir a vida e as mudanças que esta trouxe. Mas... Como a vida é como todos a conhecemos, saberíamos que cá andaria a contradição.

Numa fase da vida de Álvaro de Campos, a realidade atingiu-o como atingiria um sentimentalista daquela forma. O real, aos poucos, foi-se revelando ao poeta que vivia num mundo de sentimentos e sensações. Deparou-se com a impossibilidade de ser aquilo tudo. Os sentimentos não o satisfaziam, as ambições eram demasiadas para um ser (humano) as concretizar.

«Quero sentir tudo de todas as maneiras».

Um poema interessante (mesmo não sendo um dos meus poetas prediletos, aprecio a sua lição) apelidado de «Ode Triunfal» (estudado nalgum ano escolar que não me recorda) mostra a necessidade que Álvaro de Campos sentia:

                                               (...)

Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!

Ser completo como uma máquina!

Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!

Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,

Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento

A todos os perfumes de óleos e calores e carvões

Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!

                                               (...)                                                       (Retirado do seu poema)

A impossibilidade é então percetível. Queria ele se sentir como uma máquina, conhecer as suas engrenagens, a sua função. Mas nada disso a vida lhe apresentou. Decide então abdicar (ou a apresentada decadência do seu sentimento por tudo) dessa sua visão da vida. Na minha opinião, nesta sua fase acompanha o seu criador com um estilo de escrita semelhante, mostrando que não conseguiria então realizar feitos como, (por exemplo à sua ambição), as máquinas o fazem para aquele seu fim.

A nostalgia atingiu-o sobre a sua infância, em que tudo era simples e as dúvidas que agora o apoquenta devem-se ao facto de ter perdido esse seu tempo de ingénuo (ignorante em termos de responsabilidades e/ou sentimentos).

É então quem, dos apresentados, viveu a vida com a necessidade de ser mais e maior. Como se observou foi quem apresentou uma maior decadência, pois quem muito ganhou, tudo tem a perder.

Passo então para o seu criador. Aliás, o criador de todos eles. Fernando Pessoa. Incrivelmente escrevia sobre a sua pessoa para além de todos os heterónimos que desenvolveu. A análise dos seus poemas refletem-nos para a consciencialização do eu. Acredito que todos os seus pensamentos, todas as suas questões ou sensações (que como foi apresentado, dividiu-as em outros seres) teriam que ficar em algum lugar. Nele mesmo. Pessoa não queria ser ninguém, ou por outras palavras, não queria saber quem era. A dor de pensar é presente nos seus poemas. A admiração por um dos seus próprios heterónimos, Alberto Caeiro, fê-lo querer alcançar mais um sonho – Pensamento, ilusão, criação. Ou seja, retratando os heterónimos como sonhos, ou questões em que Pessoa mentalmente as resolvia e observava os seus resultados. Quase como, se tal pensamento lhe ocorresse, que faria alguém com ele? E assim uma personagem surgia, com o objetivo de lhe saciar essa dúvida, uma questão que nem a ele lhe pertencia, mas a alguém que ele resolveu atribui-la – (continuando) que a sua própria pessoa.

Pessoa foi, mais que um homem, a consciencialização de um. A sua escrita retratava, mais que dúvidas, questões ou ideologias, mas a personificação delas! Personagens criadas a partir da sua mente, trabalhando para desvendar e aprofundar os temas que ele se aparentava.

Viveu várias vidas ao ser diversas gentes. Questionou-se com tamanhas questões que ninguém refletia. Era ele, era as suas criações. A sua mente, mais que uma mas todas aquelas que ele refletiu acerca...

 

E mais então não conheço (ou realmente estudei sobre), mas é fantástico o que uma pessoa conseguiu desenvolver dentro de si. Cada heterónimo, cada personalidade era um pouco do escritor. Assim as fez, levando ao extremo pequenos pensamentos criando um personagem inteiro. Apresentando as dúvidas, os desgostos, as paixões, as fantasias, as crenças... Tudo no seu devido heterónimo. Era então um homem completo, que se conhecia a si e aos seus (pensamentos). Levava uma vida boémia, (não quero nem imaginar as dores de cabeça por que passou...) Mas no fim... No fim apresentou-nos isto tudo. E quem sabe, não será o inicio de algo maior para a compreensão da mente humana!