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Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

29.Jul.18

Layers

Sentando num banco, próximo do único local que reconhecia luz naquele compartimento, um homem dormitava em seus pensamentos. A única luz que atravessava a pequena janela incidia numa tela, destacando-a de toda a negritude que ao seu redor abundava. 

A tela estava erguida por um velho tripé de madeira, com sinais de muito (ab)uso. A tela, no entanto, não apresentava sinal de ter sido utilizada. Um branco tosco que lhe dava ares amarelados era a única imagem representada. Um vazio ansioso de ser preenchido.

Abre os olhos e é nela que incide o seu olhar pesado. Em mais nada se foca; mais nada realmente lhe é apresentado. Toda a sala lhe demonstra aquele vazio, aquela peça sem encaixe, e tudo ao seu redor mostra-se insignificante, pois nenhum propósito pode atribuir a uma arte inacabada.

Pede forças, num lamentoso suspiro, e levanta-se, aproximando-se de um conjunto de tintas que imediatamente derrama numa paleta que tinha por perto. Aproxima-se da tela, e estagna. O andar, o olhar, o pensamento, tudo... Ouve apenas a sua respiração. Mira concentrado uma tela com vontade de o sugar. Segura firmemente no pincel e passa-o por uma das cores que tinha escolhido da paleta, e aponta para a tela, deixando o braço elevado ao nível central da mesma. Toca-lhe, suavemente, e um ponto negro surgiu. Mesmo sendo tão pequeno e estando posicionado no centro da tela, apoderou-se de toda a atenção daquele tecido, que recebeu aquele toque, aquela cor, de forma tão acolhedora absorvendo a pequena gotícula de tinta.

Rapidamente borrata uma outra tinta na ponta do pincel, e uma inspiração desconhecida tomou controlo do seu corpo, dos seus movimentos, e rabisca com tamanha convicção que se deixa levar naquela energia espontânea.

Não hesita em escolher nenhuma cor que o pincel absorve; pinta afastando-se de tudo o que ele faria, e deixa sim na tela o que realmente sente, sem lhe quebrar o percurso hormonal com ilusões, mentiras ou opressões que apresentam-se numa camada menos extrema do seu interior.

Dali partiu ele, de um insignificante ponto negro desenhado, com todas as cores ali concentradas, desejosas de se exprimir, de sair daquele lugar opressivo.

Dali saíram as cores, fugitivas em forma de espiral do pequeno circulo ali representado. Mais próximas da origem saíram vermelhos sangrentos, castanhos derramados com esse sangue, azuis tão negros quanto as profundezas do oceano. Mas aí as cores começaram a lutar, nadavam nesse profundo azul, e já claras se apresentavam. A superfície desse oceano foi alcançada e azuis tão claros quanto um dia sem nuvens e ensolarado surgiu, brilhante. Os verdes nasceram da energia e vida dos azuis levemente apresentados, e expandiram-se ficando eles claros. Rosas brotaram seguidos de amarelos luminosos quanto o sol, deixando um branco ávido no final da espiral, percorrendo todos os rebordos não preenchidos, abraçando toda aquela energia pitoresca. O homem afasta-se.

Cambaleia para trás e encontra o seu banco batendo-lhe nas pernas, levando-o a sentar-se. A respiração é ofegante, não pelo esforço mas pela imagem que está agora destacada pela luminosa janela. Porquê uma espiral? Refletia. Que liberdade tem algo que conheceu as correntes da limitação? Não podia ser, aquilo não era o que ele sentia, aquilo não era o que ele queria sentir! Rapidamente ergueu-se, segurou numa nova paleta de cores e reforçou a cor que o pincel refletia na sua ponta.

Pintava, agora ferozmente com as pinceladas carregadas, os sentimentos a fluírem em todo o corpo! Uma nova camada de tinta ofereceu àquela tela, afastou-se da ideia de que era prisioneiro das suas ideias, quebrou a fluidez da espiral desenhada e ondas abordou na sua nova expressão. Um movimento imprevisível, sem inicio ou fim conhecido. As cores escuras, mas todas elas carregadas de vivacidade, as ondulações preenchidas de tons agora tornando irreconhecível a espiral anteriormente desenhada. Quando terminada voltou a refletir. Onde é que eu me encontro? De onde começo a sentir ou a caminhar? Que liberdade opressora é esta que não nos mostra o livre, mas sim um vazio maior do que o que sinto!? Nada o agradava, as cores estavam muito escuras devido à sua indignação anterior, a ondulação fazia-o vaguear sem um destino ou propósito entre as cores, entre os seus sentimentos; não atribuindo a nenhum realmente uma razão de existir.

Enervado volta a erguer a paleta, esfrega o pincel em todas as cores e volta a pintar. Com este feito a cor tornou-se em tudo, a negritude aprofundou-se. Vermelhos rosados percorriam de cima para baixo, de uma ponta à outra da tela. Azuis negros rondavam esse encarnado sangrento percorrendo as faixas que sobrepunham-se à onda fluída, e lhe dava traços concretos e convictos. Mais eufórico ainda ficou, depois de apresentar a vida na sua lástima forma de ser (em altos e baixos), atirando com a paleta à tela! Encontra um pequeno recipiente em que guardava as tintas e atira-o também à tela, deixando uma grande borra de tinta verde negro escorrendo. Cai no chão, deita-se e ali fica, rodeado de toda a escuridão que apenas apresentava os contornos dos objetos ao redor da sala. E se nunca conseguir? Lamenta-se.

Levantando-se, depois de uma longa reflexão, encara a sua negra sala. Vagarosamente percorria-a, tocando nas outras telas que tinha trabalhado, nos poeirentos moveis que as sustinham, nas toalhas que as cobriam.

Abre as cortinas, e uma a uma as janelas deixam os raios de sol entrar, desvendando-se aquele local que ninguém diria que conseguia receber tanta luz ao o ter visto no seu melódico negro.

A sala é espaçosa, e agora iluminada revela o grande aglomerado de trabalhos anteriores, uns cobertos por lençóis, outros quebrados pelo chão. Poucos eram aqueles que estavam descobertos, decorando as paredes tijoleiras da divisão. Esses que fizeram o individuo resmungar assim que se apercebeu deles. Todos eles tinham camadas espessas de tinta, cores sobre outras, camadas e camadas de sentimentos expostos numa só tela, em que o resultado final apresentava sempre a confusão esperada de uma prática como essa. Assim ficou também a sua recente obra, depois de desistir de olhar para ela.

Foi descobrindo as telas tapadas e vislumbrou rostos pintados. Apresentavam ausência de cores se não aquelas que a feição o inquiria. Um tapava a face com ambas as mãos, apresentava cores cinzentas e negras e quase que se ouvia o grito perturbante que emitia. Outra simplesmente mirava-o de volta. Um rosto pálido, sem sinais de vida, mas com um olhar tão profundo que fazia ofuscar todas as restantes representações da cara desenhadas naquela tela, deixando um olhar num vazio, transparecendo apenas um sentimento de estar-se a ser julgado ao se olhar para ele. Essa mesma apresentava um sorriso, tão falso que teve mesmo que o cortar da tela, pois nem a representação da sua falsidade era suficiente para o individuo, então um buraco encontrava-se no lugar dos lábios dessa obra.

De todas uma única estava genuinamente representada com o sentimento de felicidade. A face estava tão bem detalhada que quase se via ao espelho, se não fosse o sentimento que nunca se lembrou de ter. Ao olhar para ela sentia-se tudo, menos feliz. Quase que como magia, aprisionara a felicidade naquela tela, e ali a deixava reinar, num local onde nunca desvanecia; ao menos ela era feliz.

Caminhando ao redor da sala, foi percorrendo entre os destroços das suas outras obras, reparando-lhes nas cores e imagens incompletas que percorriam aquele chão, tão borrado quanto todas as telas ali expostas. Foi pegando nalgumas, e, mesmo sem se completarem juntou-as no chão, como se a um puzzle se tratasse se este fosse montado contraditoriamente à regra geral de os completar. Ali ficou horas, já o sol via-se com dificuldades em iluminar a divisão.

Juntou todas as telas que tinha, deixando a mais recente ainda na mesma posição. As telas com cores mais negras foi expondo juntamente com as que tinham cores mais claras, mostrando uma junção estranha de cores. Os retratos estavam dispostos ao redor das cores, mentindo sensações, apresentado origens negras e sorrindo, com abordagens felizes e gritando de agonia. Só faltou um. O quadro recente ali estava, a sua ultima tentativa da compreensão dos seus sentimentos. Esse não hesitou em queima-lo. E um furor de tintas acompanhou as chamas, até não restar nada mais que uma pilha de cinzas que chamuscava ainda. Essas recolheu-as e atiro-as para cima das peças de tela no chão, deixando no ar um misto de pó e cinzas e nas telas a substância que agora as percorria, tão minúscula, mas em todas as cinzas da compreensão abundava, entranhando-se no tecido frágil com o calor ainda possante que tinham.

Era de noite e nenhuma lua o visitou, deixando a sala agora num breu. Olhou em redor, nessa escuridão, e encontrava-se em todo o lado. Para onde se virava estava ele. Sentia-se dentro de um espelho tão profundo que o reflexo não seria a sua representação falsa, mas ele outra vez ali, diante de si mesmo! 

Ali aos pecados se encontrava naquele chão, figuras incompreendidas se à luz estivessem, mas não naquele momento, naquele momento não existiam, mas estavam lá, ele sabia que estavam lá. Os sentimentos sentia-os todos, mas não via nenhum. Não compreendia porque os sentia, mas todos eles rondaram o seu ser. Deixou-se cair levemente num sono profundo que o percorria, e ali passou a noite.

Quando acordou a sala estava a receber os primeiros raios solares. Rapidamente se levantou e mirou o chão. Continuava ali tudo, sonhou que sentiu aquilo tudo! Não, como seria um sonho se ali estava ele? Teria ele criado a sua obra? Teria ele expressado todo o seu ser? No final descobriu a resposta. Sorriu, em tom de desafio, e abriu um tripé novo que tinha guardado na sala das arrumações, deixando-o agora no mesmo local que estava o anterior. Fechou as cortinas, menos uma. O sol rompeu pela janela, e novamente uma tela estava destacada, num branco tosco que lhe dava ares amarelados. O individuo ergueu o banco que estava no chão, pô-lo perto da janela, sentou-se satisfeito e fechou os olhos...