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Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

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03.Jun.18

Ler a vida

Algo que tenho me apercebido ao longo do tempo, não sendo o único, é que a leitura de um livro é desejada do principio ao seu final.

Faz parte da natureza humana esta necessidade por uma conclusão, por um desfecho para um qualquer ato. É algo que não se controla, mesmo que por menos interessados estejamos num assunto, sentimos um estranho prazer de o ver desenrolar.

Ao ler um livro, sinto uma vontade imensa para saber o fim da história (claro, um sentimento comum). Mas antes de o fazer pondero sempre se o quero mesmo fazer. Questiono se quero terminar o livro, acabando ali com um mundo em que tantas experiências retirei ou se prolongo o seu desfecho, e, de alguma forma, mesmo não sendo ao ler as suas palavras, continuar com aquela história presente em mim e fazendo com que a cada dia uma continuação diferente aconteça devido à minha interpretação.

Terminar um livro é escolher o final que o destino lhe propôs. Não existe nele a influência da personagem que o acompanhou durante toda aquela aventura, que é o próprio leitor. Ao se concluir um livro, por mais experiências que retiremos dele somos sempre meros observadores.

Com a vida é diferente. A leitura da mesma não é corrente nem fluída para lhe desvendarmos o final. A vida é o nosso próprio livro, aquele em que a página que nos encontramos a ler é tudo o que sabemos na altura. O passado está lá, já não tão marcante como foi, e o futuro certamente irá ser lido (escrito), mas está à frente, lá na próxima página. Na vida não existem atalhos, ou pequenos avanços na narrativa, levando-nos a acompanhar todo o processo da história, por mais que naquele momento nos envolva uma vontade de pular para a próxima página.

Deve ser por sentirmos esta necessidade do término que o fascínio pelo desenrolar de um assunto é nos sempre tão satisfatório. O que não conseguimos conquistar na nossa vida, fazê-mo-la em outras. Essas existindo num qualquer tempo histórico, fantasioso ou não, e lá pronto para ser explorado do principio ao fim no seu respetivo livro.

Mas assim como os livros são pequenos, também é pequena a saciação desse desejo. Então o desespero por ler a própria vida surge, querer algo indeterminável e nisso procurando um fim, sendo este impossível de ser observado pelo seu criador. O final da nossa vida nunca nos irá ser revelado, pois ao mudarmos para a próxima página, aquela que julgamos a última com todas as respostas às anteriores, é apenas uma página negra, cheia de tudo, não nos revelando nada.

 

Não tentem lê-la, mas sim escrevam-na porque mesmo assim, de alguma forma fazemos batota e lemos a vida, mesmo que essa não seja a nossa.