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Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

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25.Jan.18

Mil e uma palavras

Existe um ditado muito famoso, assim: «Uma imagem vale mais que mil palavras» que muitos o dizem por graça, outros filosoficamente, mas (quase) todos o fazem por ignorância. Não me tenham em má conta, sim, sentido faz (muito mais que este título por assim dizer) mas toma-lo por verdade absoluta? Não, isso não o faço tão imprudentemente.

O pressuposto desta ‘mensagem’ leva-nos a refletir nos dois intervenientes apresentados: as palavras, e a bendita imagem. E como não está escrito em nenhuma língua estranha, o sentido é também percetível.

Com uma imagem conseguimos expressar (vou me ligar mais à expressão em ambos os assuntos) um sentimento... Como o hei de apresentar... fidedigno? Assim, porque não apresenta contradições. As cores são aquelas, sem sentidos escondidos (ao contrário das palavras, com a sua imensidade de subliminaridades). A textura/figura, mesmo que impercetível não se altera, é fixa, o sentido é só um (claro que na arte abstrata considero uma exceção, mas assim o é a escrita – abstrata, por isso fora da imutabilidade). Por muito que uma imagem possa ser observada por milhares de pessoas, e todas sentirem diferentes vibrações com ela, as cores serão sempre aquelas, a figura só uma... Sim, torna mais pessoal a obra ao seu realizador. Como referi no inicio, se apresenta diretamente, e, com isso, reflete-se de uma forma mais profunda e delicada do pensamento do seu autor.

Agora com a escrita, é sempre um tiro no escuro. Uma palavra vale muito num certo contexto, uma frase apresenta várias interpretações. É algo muito afastado, mas por assim se revelar, é o mais próximo a todos. Com as palavras escrevemos o que nos vem cá de dentro, mas como nenhuma palavra se revela literalmente cá de dentro, a escrita é muito geral. Os sentimentos das palavras já estão atribuídos, e todos os sentimos, é por isso que muitos se identificam com a vida dos outros. Queriam lá pensar que éramos todos diferentes... A nossa diferença apenas se demonstra através do sentimento que estamos nós a presenciar numa cena, à mesma altura que uma outra pessoa com um sentimento adverso o faz. São diferentes, mas não quer dizer que ambos não possam sentir o mesmo numa outra altura relativamente ao mesmo acontecimento.

Na imagem, este exemplo de sentimento diferente a diferentes alturas é onde realmente se pode observar a mutabilidade que a imagem necessita (e obviamente apresenta; não é com o intuito de a menosprezar que estou a escrever este texto...). É necessário pois implicará novas perspetivas que se possam revelar. Por exemplo, um momento na vida passado que irá de alguma forma apresentar traços naquela imagem mais presentes para o observador do que na primeira vez. A arte da imagem (novamente como forma de expressão), adequa-se ao presente, sendo que o observador nunca acompanha nem o sentimento do autor, nem a sua própria reflexão pois altera-se ao observa-la. É uma arte do momento, é uma arte (por mais que seja aberta) que restringe o seu observador ao que lhe é apresentado. Por exemplo, a impossibilidade de observar por detrás da tela... (algo diferente)

Com as palavras não existe algo físico para demonstrar. Sim, as palavras aqui vagueiam, mas não existe nada escondido «por detrás da tela». Contundo, muito menos existe algo apresentado de facto. É isto o que me fascina mais nas palavras que nas imagens. Uma imagem é única, apesar de todas as formas que a observarmos e de todos os sentidos que lhe embutimos, só existe aquela. Agora, se formos «observar» as palavras, são infinitas imagens!

Posso apresentar o exemplo de | livro – filme | que todos estamos familiarizados. Um filme (por mais fantástico que seja com todas aquelas paisagens) só consegue produzir um cenário para a cena, só demonstra ao expectador uma forma de interpretar aquela imagem. Por outro lado, com os livros, são as palavras que nos indicam a possibilidade de vislumbrar os cenários. São as palavras que nos guiam por entre eles, que nos fazem vive-los da forma como os lemos. Ou seja, se fossemos pedir a alguém para ilustrar o cenário de um livro, seria provavelmente diferente de uma outra pessoa sobre o mesmo.

Então a que conclusão chegamos? Bem, quem vos disse que acabava? Ou que eu teria uma conclusão? Apenas rabisco. As letras lá se revelam (mesmo aquelas que depois de pressionar a tecla duas vezes oferecem resistência). As palavras lá se formam. As frases cá aparecem. As ideias cá transbordam.

Mas pronto. Continuando: A conclusão (se eu posso assim concluir este assunto), é de que uma imagem só vale uma imagem, e as palavras valem as quantas nós conseguirmos revelar. O poder da palavra é enorme, assim como o da mente. É com a nossa mente que a palavra possui tamanho poder. É com ela que criamos os nossos cenários com as palavras. É com ela que mais que na imagem, retiramos o sentimento de algo que não o possui. A imagem sim, possui um sentimento, possui a sua própria melancolia, os seus tons... Mas as letras são só elas. E mesmo assim, é com a mente que esta ‘’geringonça’’ funciona de formas que impressionam a todos.

Penso (que outra coisa não faço) que são duas artes distintas. Apesar das palavras ‘reproduzirem’ artes que não as suas (a criação «visível» de um cenário) não foram estas fabricadas com esse propósito fixo. A imagem, por mais restrita que se apresente, é única, e isso demonstra realmente o real. Ou melhor, demonstra realmente o sentimento real. Podendo, (e fazendo), digo que a arte da imagem é para observarmos a realidade do mundo e dos sentimentos (representada fielmente - a realidade do mundo; E sentimentos representados com sentidos - formas e aspetos).

As palavras, por mais abrangentes que se revelem, nunca serão verdadeiramente de ninguém. Nunca pertencerão realmente a alguém. São só palavras, com os seus sentidos disformes, afastadas da realidade, oferecendo a sua ficção a cada um.

Bem, se uma imagem vale mais que mil palavras... Quantas palavras valerão uma imagem?