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Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

19.Ago.18

Quero-te!

Agitando-se em suores, lutando contra os lençóis e as mantas de sua cama, numa batalha que se apresentava num impasse, um jovem esforçava-se para adormecer.

O céu encontrava-se claro, com o luar atravessando a janela impetuosamente, oferecendo sombras a toda a mobília que no quarto se encontrava. Tal feito que mais ainda repugnou o rapaz, que cobria agora a sua cabeça por debaixo da almofada, isolando o pouco que conseguia do silêncio que o perturbava, assim como da luz.

Tanto lutou que se fartou, ficou sem forças para se espernear mais. As feitas da cama jaziam agora no chão, criando um oceano ondulado a partir das curvas do tecido dos cobertores, com a lua refletindo os seus detalhes, só como ela faz num dia noturno ao mar. O rapaz reparou no relógio, eram 03:17, e lá tornou a deixar a cabeça resguardar-se na almofada, refletindo no dia desagradável que teria de manhã que passar. Acabou por adormecer.

Um ruído intermitente invadia o quarto, tão estridente que fez com que o rapaz acordasse. Era o seu despertador, marcava 06:40. - Que este dia termine depressa... Sussurrou na sua cama, para ninguém que lá se encontrava. Num ápice levantou-se, e, como de costume, a sua roupa estava dobrada em cima de uma cadeira, que todos os dias prévios, à noite, tinha muita atenção em a deixar pronta. - Menos coisas para me preocupar, é o que diz para si mesmo sempre que o faz.

O sol ainda não se tinha descoberto, sendo a lua quem ainda prevalecia nos céus, deixando aquela madrugada ainda mais fria naquele dia de inverno.

Àquela hora ainda os seus pais não tinham despertado, então, vagueando pela casa, quase como se apenas a sua sombra ali estivesse, movia-se de divisão em divisão. Agora na cozinha, preparava-se para tomar o pequeno almoço. Num lamentoso andar, este refletindo ainda a sua batalha à umas horas atrás, preparou uma taça com cereais, e deixou-se à mercê do luar para lhe iluminar a refeição. Terminada esta, um pouco mais desperto, avança para a casa de banho para esfregar os dentes e se aprumar. Quando pronto, erguendo a mala ao ombro, abriu a porta da casa e quedou-se a apreciar a brisa fresca que o vento lhe trazia à face, com os primeiros raios solares a romperem os céus. - Haja amanhã, porque o hoje não me agrada... Pensa ao fechar a porta, começando a caminhar em direção à paragem de autocarro.

Chegando à paragem, decorridos os seus pensativos dez minutos, depara-se sendo o primeiro; era sempre o primeiro. Tudo o oprimia, a sua casa, a sua escola, as aulas, e, mais que tudo isso, a razão dessa opressão, as pessoas. Quando se via com oportunidade, utilizava a espera para refletir acerca das coisas.

Outros dez minutos decorreram, num silêncio quebrado apenas pelo vento, e pelas poucas pessoas que circulavam na rua, entrando nos cafés e cumprimentando-se à vista. Até que um colega se abrigou da brisa encostando-se ao canto da paragem.

- Bom dia! Disse quando chegou, encontrado o rapaz ali, em pé, apesar de estar sozinho e os assentos estarem livres.

- Bom dia, respondeu o rapaz, reparando que já o outro tinha tirado do telemóvel, perdendo-se no mundo virtual.

Nunca o atraiu. - As pessoas já são falsas encarando-se, retirem-lhes o rosto e vejam-nas a agir... Disse para si mesmo, naquele momento. Sempre via o mundo assim, e, naquele instante foi aquilo que lhe veio à cabeça. O silêncio era agora quebrado por mais duas pessoas vindo juntas, tagarelando conversas matinais sobre o dia anterior e previsões para o presente. Algo que também nunca compreendeu, relatarem um dia e não o questionarem, não se perguntarem do porquê das coisas terem sido assim. 

- Bom dia, rapazes! Disseram as duas jovens.

- Bom dia, disse avidamente o outro

- Bom dia, este melancólico e pesado. 

Os três estavam agora perdidos no outro mundo, atravessando os portais entre ambos para breves galhofas, comentando algum acontecimento corriqueiro que lhes aparecia nos ecrãs.

Chegou o autocarro. Deixando-se vagaroso, ficou em último a entrar, reparando que um jovem vinha a correr para não perder o seu transporte. Ao pagar o bilhete assentiu ao motorista o troco e advertiu-o para o outro que ainda vinha longe. Procurou um lugar no interior, e quedou-se à janela, onde sempre gostava de ficar - Vê-se o mundo mais depressa, não se tendo tempo para reparar na corrupção do mesmo, era o que pensava. Era nestas alturas que gostava de ver as coisas, pois na verdade só lhes passava o olhar, não as via concretamente, criando a maior ilusão de todas; a observação da realidade sem o realismo. Uma árvore era só e apenas isso, uma pessoa a caminhar no passeio era só e apenas uma entre muitas. Não se repara nas raízes toscas que saem para fora, nem nas macabras formas dos ramos das árvores, nem tão pouco nas feições das pessoas, ou de onde vieram e para onde vão, não. Naquele instante, o vislumbramento do momento é só aquilo, estando repartido em muitos outros, como um filme de longa metragem, em que nos é apresentado o cenário vagamente, para então incluir a trama principal. Ali era o vago, a trama seria depois. Não obstante, nessas alturas não lhe ocorria mais nada se não apreciar o momento.

A viajem era de vinte minutos, pelo menos esta primeira. E quando chegou ao seu destino, saiu calmamente do autocarro. O dia fora cinzento que se revelara, apesar de o sol já se ter posto este ainda se mostrava insuficiente para se apresentar quente ou luminoso. Separou-se dos outros, e seguiu para um canto, onde esperaria o próximo autocarro. Aí ficou, na sua longa espera de cinquenta minutos, puxando o fecho do casaco próximo do pescoço e cruzando os braços ou deixando as mãos nos bolsos, encostado a um muro, em pé, como sempre ficava. Não o incomodava, o que o fazia era o fumo do tabaco que se encontrava concentrado na única e pequena revessa do vento, o que lhe perturbava o pensamento e a respiração, cinquenta minutos foram assim, para não referir quando as toxinas eram outras. Enervava-o sempre não poder ir para outro local, pois ou o vento era tão desconfortável ou mesmo a chuva o importunava.

Quando deu pelo autocarro foi-se aproximando devagar, observando muitos dos outros correndo, como se a vontade de ir ao encontro do seu destino fosse agradável. Lá dentro, novamente num canto à janela, deixou-se no seu profundo silêncio, ignorando toda a confusão que um autocarro cheio implicava, como gritos e músicas berrantes; para ele chegava-lhe a vista do exterior, a sensação de liberdade que lhe oferecia o movimento. Eram aproximadamente cinquenta minutos esta segunda viajem, de puro stress acumulado de toda a agitação dos outros, também do seu devaneio, ao observar o mundo naquele meio; a imagem passando rápido, num grito oportuno ou num riso sarcástico que lhe apresentava nojo de tão alto que era. Nem assim o mundo se via bonito, todos os dias oprimia-o cada vez mais, aprisionava-lhe a vontade de o descobrir e de viver nele... Chegou à escola.

As dores de cabeça eram comuns, não apenas do ruído que por todos os dias passava, mas também das coisas que o inquietavam. Eram agora 09:30, sempre chegavam na hora de entrada, e lá perguntou a um colega de turma em que sala se tinham que apresentar. Até isso o fazia questionar, o terem que mudar de sala a cada aula. Porque não sempre na mesma, para todas as turmas? Seria assim tão complexo? Lá entrou na sua, e, novamente, um barulho persistente dos seus colegas. Duas horas se passaram, a primeira aula estava concluída. O pequeno intervalo pouco mais que quinze minutos eram, onde esses pareciam dez, em que cinco seria tempo de lanchar ou desentorpecer as pernas. Depois, novamente as duas horas que se seguiam. 

Ao almoço tinha uma breve hora para desfrutar do pouco que conseguia, ali fechado naquele estabelecimento. Quando não chovia, caminhava ao redor da escola, surpreendentemente poucas vezes sozinho, não obstante, poucas vezes falava, dando a palavra a quem acompanhava, sendo que só os ouvia conversar entre si, deixando-se mesmo atrás na sua passada. Quando se viam seguros que poderiam ir almoçar, entravam na cantina e lá num canto se juntavam, quando este os permitia, ou pequenos grupos eram criados lá dentro.

As duas horas seguintes novamente fechado. Não se sentia inútil, mas aborrecido. Todos o estavam, mas ele não era porque as aulas o maçavam, ou que tinha algo mais interessante para fazer, era porque não conseguia encaixar a matéria no dia a dia. Raras eram as vezes que falava, algumas até mesmo eram impondo autoridade para os outros, como se lhe valesse de algo, silenciar um grupo. Nas que já se perdia no raciocínio, juntava-se a alguma conversa de algo que estava a ser discutido, se isso o interessava -  quando não eram as brigas pelo futebol e pelos clubes, algo que nunca compreendeu, todas essas rivalidades e repulsas. Algumas vezes encontrava-se rabiscando o canto do caderno, ou escrevendo algumas palavras que lhe remetiam para a sensação que tinha. Criando versos soltos, poemas incompletos, sempre cansado de se representar naquele sentimento.

Novamente os míseros quinze minutos para puder ser quem era, longe da sala de aula; o tempo livre que tinham. Não se encontrava, nos corredores, no pátio, poderia rondar a escola todos os dias, mas nunca se deparava consigo mesmo. A última aula do dia era apenas uma hora, mas naquele dia invernoso já a noite quase se assemelhava, e a vontade agora não se lhe revelara para prestar atenção a ela.

Terminado o dia, partiu cansado para o autocarro que lhe correspondia, numa noite já escura, assim como quando despertou à muitas horas atrás, esta menos iluminada pela lua. A viajem sabia-lhe melhor, a do regresso. O barulho era menor, o cansaço estava presente em todos. As imagens menos nítidas se apresentavam, sendo apenas vultos, ou figuras mal definidas quando algum ponto luminoso as apresentava. Mas mais confortável ainda se sentia, mesmo o mundo sendo negro, e a imagem do exterior da janela pouco lhe apresentar fosse o que fosse, podia apenas apreciar o movimento, percorrendo toda a negritude que se encontrava na sua mente, e no seu coração. Não encontrava o fim, mas a viajem de volta parecia-lhe um pouco mais rápida, talvez por estar tão entretido a apreciar o seu lado que menos o incomodava; aquele que menos via ou que questionava - o negro.

Este conhecia-o, era esse negro, esse vazio de cor que o acompanhava nos sonhos, pois raras eram as vezes que se lembrava que sonhara na noite anterior. Era um abraço, como o da morte, que lhe retirara a vida e a devolvera no dia seguinte. Deveria ter sido algo que talvez a mente lhe oferecera, para encontrar descanso nessa altura. Começou a sentir um conforto com esse lado, apesar de criar os sonhos para si mesmo, acordado. Chegou à primeira paragem.

Com sorte, pouco tempo demoraria para o próximo autocarro chegar, então, abrigou-se a um canto do vento forte e aguardou, refletindo no dia que tinha passado. - Segunda feira. E eu querendo o amanhã depois disto, que vida... Pensou para si mesmo. Chegando a casa, depois da habitual rota de vinte minutos do autocarro, largou a sua mala e sentou-se. Não tinha vontade para nada, o fim de semana passou-se num sono, e agora estava no final de uma segunda feira, já nem sabendo o que querendo para aguentar mais quatro dias daquele jeito. Eram por volta das 20:30, quando tinha chegado a casa, e ia agora jantar. Depois de retirar o seu prato, e de todos abandonarem a mesa, reparou no relógio e eram 21:00. Abriu um espaço na mesa, deixando a toalha de pano que a cobria descobrindo a madeira, e ali, na cozinha, ficou a fazer os seus trabalhos. O seu quarto era um cubículo minúsculo, onde não encontrava espaço para estudar ou fazer os seus deveres nele. Depois de terminada a sua tarefa, eram horas de se deitar. Tomou um banho e assim chegou-se ao quarto.

Arrumou os livros necessitados para o dia seguinte na mala, preparou a roupa para o próximo dia, e perto das 23:00 conheceu o repouso, num colchão velho que tinha na sua cama, que o único conforto que realmente lhe era oferecido era o cansaço que sentia, para dormir nele. Mesmo ainda ter travado uma pequena batalha com a mente, conseguiu perder-se no sono. 

Sem se ter apercebido que a escuridão que agora via no quarto era ele estando desperto, pensou que novamente estaria num limbo, em que o tempo passava e ele não o sentia, mas não. Era realmente aquilo, assim como um vulto que se aproximou da sua porta e o confrontou.

- Oi, acordei-te?, sussurrou a figura.

- Não sei se ainda estarei a dormir... Respondeu. Ouviu-se uma pequena risada abafada da personagem que ali estava, tomando o comentário como cómico.

- Vens comigo ver uma coisa?, perguntou.

- O quê? questionou o rapaz

- Queres vê-la nesta escuridão, é? Anda daí! - Incentivou-o a figura, levando-o a levantar-se da cama, esta não sendo menos desconfortável quanto as já previstas dores de cabeça no dia seguinte devido à falta de sono e cansaço.

O rapaz seguiu a figura que o inquietava. Alguma coisa via nela, algo que o fascinava, que o inspirava. Tinha sido levado para uma grande área natural.

- Não conhecia isto aqui, diz o rapaz.

- Caminhas de cabeça baixa, como hás-de reparar no que o mundo tem se não nas pegadas dos infelizes. A voz era-lhe tão familiar, o tom calmo e sereno.

- Sigo o caminho deles para seguir um... E não andar para aqui perdido...

- Cala-te!, interrompe-o a figura - Olhas para baixo porque és parvo - dizia num tom calmo - Olhas para baixo porque não te esforças para olhar para cima, custa mais um bocadinho, mas vês mais um mundo inteiro!

- Se as pegadas no mundo são de infelizes, que felicidade se encontra nas coisas que estes fazem?

- No céu não tens pegadas, é todo teu para vaguear. Nele podes voar!

- O homem não tem asas.

- Tens mais que asas! Ou o que achas que te trouxe aqui? Tanto tem asas como a vontade de as ter, ao contrário dos pássaros, que as utilizam na sua primária forma.

- Não percebo.

- Olha à tua volta... Diz a figura sorrindo, no seu tom de voz feminino.

Perdendo longos minutos analisando o que o rodeava, o rapaz encontrou-se perdido no meio de tanta informação. Não, não era informação, era uma simplicidade tão grande que tão pouco lhe dizia, tão pouco compreendia. As árvores eram abundantes, a noite era iluminada, com o céu apresentando uma grande aurora. O vento era tão leve que assemelhavam-se a dedos percorrendo a sua face ao de leve. Quando reparou, era a figura quem o cariciava.

- Estou a sonhar?, perguntou o rapaz, incrédulo.

- Diz-me tu, se queres que isto seja apenas um sonho ou a tua realidade... Respondeu-lhe ela, com a voz tão doce que o rapaz sentiu um desejo de lhe beijar os lábios.

- Eu quero-te! Ouviu risadinhas ao ver a figura a separar-se dele.

- Anda, diz ela ao lhe oferecer uma mão para o acompanhar.

O vento começou a soprar vigorosamente. As árvores afastavam-se e o chão tornou-se rochoso. Ouvia o mar correr, de algum lado. 

- Prova-me que me queres, disse a voz, apresentando o tom um pouco ríspido apesar de nem fazer o rapaz sequer questionar o teste.

- O que tenho que fazer?

- Aproxima-te

Encontrava-se agora num abismo, tão grande que do fundo só ouvia o mar pulsar vivo, embatendo nas rochas e sobrepondo-as. O fundo, entretanto, era tão negro quanto a sua mente.

- Porque é que estamos aqui?, perguntou, um pouco preocupado

- Porque é aqui que queres estar. É aqui que me trazes todos os dias, é aqui que passo a vida! Diz a figura, revelando a sua natureza ao rapaz.

- Tu?...

- Sim! Agora, se tanto me queres, salta! - apresenta o desafio sem relutância, tornando agora o seu tom ríspido recitado num eco, que penetrava os ouvidos do rapaz cada vibração das palavras.

Salta... Salta... Salta... 

- Não!, continuava a ouvir dentro de si, salta... salta... salta...

A mente riu-se, tão alto como no autocarro eram os risos que ficavam-lhe na memória.

- A única escolha que te ofereço é como queres aterrar, no fundo. Disse-lhe.

- Como assim?, pergunta o rapaz, tão perturbado com a situação, com o eco que ainda ouvia e agora os risos que no eco se prolongavam.

- O que ouves agora, és tu a desistir - foi dizendo, retomando ao seu tom cordial de outrora - Se saltares agora, foi devido à pressão que tens de fugir da vida. O fundo não te será acolhedor, garanto-te.

- Como é que faço para não saltar?

- Não fazes. É aqui que me dizes que me queres, e se vais embora, eu também te abandono.

- Mas se saltar e morrer! O que será de mim! E de ti, também!

- Nenhum de nós morre, mas nenhum de nós vive...

- E como faço para viver? Eu quero-te! Mas não assim!

- Solta o pensamento. Deixa-me partir, não penses que estou aqui, e eu desapareço, pois este é o teu mundo, e no teu mundo estás perante este mesmo abismo, assim como na vida.

- E depois de te ires embora?, pergunta o rapaz, lacrimejando.

- Depois só tu és o encarregado do fundo deste mesmo abismo. Se queres que seja rochoso, ou um outro céu que não este que vês, tão surreal.

- Caio nas nuvens?

- Não chegarás a cair, diz, sumindo-se a figura, deixando o rapaz ali sozinho.

- Mas?... 

Meditou. O silêncio ele criava-o, as sensações ele as reclamava, mas nenhuma lhe oferecia a certeza do que estaria para descobrir no fundo do abismo. Decidiu fazer algo, o único ato que não lhe oferecia incertezas, acabar ali com aquela visão. Um salto realizou, e no abismo se perdeu.

 

Acorda em suores e desesperado. Fora um sonho, como ele assumira. Mas que final tivera? Onde chegou ele a cair? Reparou que nada se encontrava diferente, fora tudo uma treta! Pensou para ele mesmo.

Levantou-se e foi refrescar o rosto. Quando se olhou ao espelho quedou-se um momento. Como raios é que eu pensava que seria assim? Riu-se. Agora sonhava e tudo acontecia diferente? Achou novamente graça à sua ingenuidade. Caí aqui! Na vida! É isso! Tinha descoberto. Caí na vida! É minha, é aqui que a altero!

No dia seguinte acordou primeiro que o seu despertador e deixou-o silencioso para aquele dia. Era ele quem despertara para o dia, não o dia para ele! Caminhou pela casa, sem medo de ser gente, e preparou um farto pequeno almoço. Vestiu-se e aprumou-se, pegou na mala e abriu a porta. Sorriu. A brisa era fresca, o sol apresentava os seus primeiros raios, e algo lhe parecia iluminar melhor o caminho, talvez o brilho que agora tinha nos olhos. Partiu para a paragem. Os dez minutos decorreram a apreciar as casas, a reparar nas pessoas que como ele se levantavam cedo, e a todas disse bom dia, recebendo ou um sorriso ou um outro de volta como resposta.

Encontrou um rapaz na paragem, desta vez não tinha sido tão apressado para chegar tão cedo, e fora o segundo.

- Bom dia, disse quando se aproximou, recebendo um bom dia tímido de volta.

- Quem és? Não me lembro de te ver apanhar este autocarro.

Com um pequeno sorriso diz:

- É a primeira vez.

- Estou a ver...

Depois da curta espera pelo autocarro lançou-se lá dentro. Sempre com o seu lugar predileto à janela. Desta feita via o mundo de outra forma, não reparava apenas nas árvores mas via como balançavam ao sabor do vento. Reparara que as pessoas mais que vaguearem no passeio paravam para se cumprimentarem umas às outras. O mundo de alguma forma sorria em harmonia.

Ao chegar à primeira paragem, reparou no dia que estava bonito, portanto pode evitar o fumo doente que tinha que se sujeitar para estar abrigado do frio. A espera fez-se fugazmente, sendo que nem deu pelo tempo passar, observando o mundo de outro ângulo. Quando o próximo autocarro via-se à distância, foi-se aproximando do ponto de paragem. A confusão era sempre a mesma, riu-se ao aperceber-se. Lá dentro, o barulho e as músicas continuavam. A viajem começou.

Não se sentia tão perturbado por toda aquela confusão e balbúrdia, aliás, abstraia-se agora na imagem da janela, ouvindo os outros massacrando letras musicais, e todos rindo e gozando uns com os outros. - Fez-se bem, disse para si mesmo quando saía do autocarro e estava para entrar na sala onde iria ter aulas.

As duas horas passaram-se, vagarosas como elas sempre passavam, mas desta vez houve mais comunicação no tópico, e nem lhe pareceu assim tão aborrecido.

- Que todas as aulas fossem assim, disse para um rapaz que saía junto com ele da sala.

- Foi uma seca... Respondeu este.

- Sempre é melhor ser assim que duas horas de escrever e copiar...

- Nisso tens razão! Concordou.

O intervalo, mesmo sendo curto, deu-lhe para observar as pessoas, com os seus grupos, a socializarem e a partilharem experiências. Porque é que isto é tão difícil para mim? Questionou-se.

Depois da segunda aula, e agora na hora de almoço, decidiu acompanhar o grupo que caminhava consigo, e não apenas seguir-lhes os passos. Ao aperceber-se do jovem que era novato, sozinho a caminhar na direção contrária, decidiu perguntar:

- Estás a andar sozinho, porquê?

- Ainda não conheço ninguém, diz envergonhado.

- Hehe, eu nem a mim o faço. Anda, junta-te à malta!

E partiu, na sua caminhada, juntos.

 

 

Há que saber que o rapaz decifrou o enigma. E, como tão bem se apercebeu do que a mente lhe disse, se saltasse onde quereria, não chegaria a cair.