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Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

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20.Jun.18

Um abraço diferente

Levanto-me com uma enorme dor de cabeça; outra vez, lamento eu. Arrasto-me vagarosamente pela casa, com uma das mãos cobrindo a minha cara parcialmente, premindo suavemente na origem da dor com esperança que pare. 

Estanco na frente de um espelho, sentindo um fogo abrasador na têmpora direita o que me obriga a lá encostar a mão novamente. É essa a imagem que vejo refletida diante de mim. Alcanço água à face, retirando aquela visão de fraqueza do meu subconsciente, lavando todo o pensamento que se formaria com ela. Fecho os olhos. Sinto as gotículas de água percorrerem-me a cara, viajando apressadas pelo meu rosto cansado, refrescando a minha rala barba. Abro os olhos.

Acalmo a dor com uma massagem, com um mínimo de sucesso; a dor prevalece. Olho agora para a minha imagem, julgando-a no consciente mas sem forças para me opor a ela. Vou me afastando, encolhendo-me da pessoa que me fixa o seu doloroso olhar no meu, que me suplica por ajuda e eu fujo, corro dali! Fecho os olhos. Não sinto agora as pequenas gotas de água percorrendo a minha cara, não sinto o fresco combatendo com o calor da minha dor, sinto apenas aquele olhar ainda me fixando e sei que se abrir os olhos ele estará lá. Grito, tão alto que julguei que o tinha mesmo feito. Abro os olhos, agora fixando-os no meu observador. A tua dor eu compreendo, disse - sinto-a e vivo com ela. O teu olhar eu entendo, continuei - Vejo e julgo o mundo com o mesmo que o teu. Não chores, aconselhei à figura que agora se mostrava passiva. Um pequeno peso saiu da pesada façanha que aquela enxaqueca decidiu me oferecer. Senti-me diferente, tinha falado, e, de alguma forma, acredito que fui ouvido. Senti aquele sofrimento alheio, a minha garganta igualmente apertou, e, mesmo sendo o oposto do que lhe tinha dito para fazer, juntei-me a ele. Estávamos agora os dois a chorar, e nenhum fazia esforço para interromper aquele ato mútuo. Não chores, que me estás a fazer chorar também, disse em tom amigável. Não és diferente, não és insignificante, és tu, incentivei-o limpando as lágrimas que me escorriam na cara, ao mesmo tempo que ele o fazia também ao ouvir as minhas palavras.

Lavei novamente a cara, tirando toda aquela pressão a que fui sujeitado, refrescando a minha agora ignorada dor de cabeça. Limpo a cara com uma toalha, percorrendo suavemente os traços que as gotículas de água desenharam na minha face, e fixo o meu olhar novamente no dele. Tenho tantas ou mais dúvidas que tu, fui dizendo calmamente - tantos ou mais medos que os teus, definitivamente mais vergonha que tu, pois pediste-me ajuda e não eu a ti, sorrimos os dois - Mas porra! Não percas tempo a excluir-te a ti mesmo da tua vida, corre atrás dela, corre mesmo que não saibas para onde! Voltaram-nos a ambos lágrimas aos olhos, mas desta vez não tínhamos perdido o sorriso, este agora percorrido pelas muitas gotículas salgadas. Abracei-o, mesmo que figurativamente, e voltei uma última vez a lavar o rosto. Lembro-me de algo muito importante que queria acrescentar. Não fui a tempo, ele já não estava lá. Sorrio, e fecho os olhos.

 

 

 

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