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Fui. Sou. Serei...

Pensamentos do (meu) mundo.

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01.Jul.18

Um piano abandonado

Era madrugada. Estava já a nascer o sol assim como toda uma sinfonia deliberada pelas aves. Despertam cantando, ansiosas por mais um dia nos seus céus azuis. Ao contrário do individuo do segundo andar, no seu lastimoso lar. 

Levanta-se, semi-serrando os olhos ao deparar-se com a luz atravessando-lhe as poeirentas persianas, e senta-se na cama, esfregando o seu cabelo selvagem com brusquidão, olhando em volta, num lamentoso suspiro. O seu apartamento era, para além de antigo, muito modesto quanto à mobília. O seu quarto estava provido de uma cama de casal, uma mesa de cabeceira, com um velho trapo cobrindo a sua superfície, essa onde colocava o seu bloco de notas, um pequeno banco virado para a varanda e um grande armário já tão antiquado quanto toda a instalação elétrica do edifício. A porta de madeira que estava fechada ligava o quarto à casa de banho. Um pequeno cubículo revestido em pedra mármore branca, já amarelada com o pouco cuidado na sua limpeza, em que de todo o essencial provinha também de um espelho, esse sem a sua maior utilidade devido a uma grande rachadura que traçava linhas furiosas e inconstantes ao longo da sua moldura.

Segue na direção da porta entre-aberta, que liga o quarto à sala e cozinha do pequeno apartamento. Apesar do escuro cinza que percorre as paredes, vê-se bastante iluminada com as duas janelas, agora abertas as cortinas, toda aquela habitação. O único destaque era num grande lençol, acinzentado devido ao pó, que cobria um velho piano. Encontrava-se no canto da sua sala, refundido entre prateleiras e estantes com velhos livros e pautas, estas semelhando-se a manuscritos antepassados.

Prepara água para ferver, na sua tosca chaleira, e senta-se recostado num sofá de pele já gasto pelo uso. Respira aquele momento, o chilrear constante dos pássaros lá fora, o assobio leve e agudo que a chaleira transmite, e todo aquele ambiente cinzento. O som agudo da chaleira torna-se ensurdecedor. Levanta-se, com uma passividade surreal, e retira-a do lume, vertendo-a numa chávena preparando o seu chá.

Veste-se vagarosamente, calça-se e prepara-se para sair.

Descendo as escadas, retirando um cigarro à saída do edifício, vê-se sem o seu bloco de notas. Volta a subir, correndo para o ir buscar quando uma senhora já idosa que limpava a sua entrada no primeiro andar, reprime-o:

- Vá devagar, homem! Há lá coisa nesta espelunca que valha a pena correr.

- Alguma coisa há de valer, já que você a limpa - diz com o cigarro premido pelos dentes, que demonstravam um curto sorriso. A senhora retribui-o, e com uma gargalhada calorosa responde:

- Há de preservar a velhice, que novidades já não espero nenhumas, filho. O individuo procura nos bolsos do seu casaco negro, e encontra um rebuçado de café.

- Tome - diz à senhora - Diga-me que estava à espera desta - remata brincando com a idosa.

- Hehehe, dos que eu gosto! Obrigado rapaz - Diz ela, genuinamente agradecida.

Volta a correr, chegando ao seu apartamento e recuperando o seu caderno.

Encontra-se agora na rua. Apesar de o céu se mostrar limpo o vento sopra vigorosamente, agitando os pequenos arbustos que se encontram entre todas aquelas melancólicas torres de pedra escura, imóveis e pacatas. Caminha no passeio, percorrendo os dois quilómetros que sempre faz até ao seu café predileto, e distrai-se com o trânsito e com os outros pedestres com que se cruza.

Senta-se, sempre no mesmo lugar se este se mostra disponível, e requisita sempre o mesmo pedido, quando o faz. Há dias em que simplesmente se alimenta da sua inspiração para rabiscar no seu bloco, e ninguém se atreve a interrompe-lo para fazer o seu pedido, observando com tamanha admiração a paixão com que o lápis risca, com que o papel recebe aquela energia. Hoje era um desses dias.

- O que vai desejar? - Pergunta uma jovem empregada, não recebendo nem sequer uma troca de olhares. - Senhor? - Tenta novamente, sem sucesso. Alguém a puxa por um braço, delicadamente incentivando-a segui-la. É então apresentada aquela personagem à nova empregada, que nada conhecia acerca das pessoas daquela rua, especialmente aquela figura que vira pela primeira vez, vestida de negro, com a cara coberta de um fumo misterioso que o rondava, e aquele lápis, tão rígido, tão implacável rabiscando naquela inocente folha que não sabia como receber tamanha plenitude emocional.

Deparou-se a olha-lo mais do que fazia o seu trabalho, sentindo aquela figura misteriosa atraindo-a. Encontra-o a pousar o lápis, a olhar para os cimos dos prédios, recostado na sua cadeira levando outro cigarro à boca. Aproveitou para intervir o homem que tanto admirava.

- Vai querer algo? - Perguntou, com um sorriso caloroso que não fazia a qualquer pessoa, mais ainda a um estranho. Não se deve ter apercebido dele, pois estava tão hipnotizada pelo olhar que agora se encontrava no seu, que até mesmo se esqueceu de recomendar a especialidade do estabelecimento que tanto lhe tinham elucidado quando começou a trabalhar.

- Um dia não hei de querer nada. Talvez nesse dia tenha tudo, talvez não precise realmente de algo... - Filosofou.

- E para comer? - Brincou a jovem, corando. O homem sorriu, participando no humor da nova jovem que agora lhe cativava o olhar. Não a conhecia, e sabia agora porque alguém se tinha intrometido entre os seus pensamentos há uns minutos. Era o seu primeiro dia. Poucos eram realmente quem se interessava, nenhuns eram os que lhe falavam aquando se perdia no seu bloco, até então.

- Uma torrada... e o mundo para a acompanhar - Diz brincando e filosofando.

- Vou ver o que posso fazer - Responde muito amável a jovem, por não ter sido levada a mal com a sua pergunta, que agora se tranquilizava mais por lha ter perguntado.

 Voltando, ainda num humor que pouco se conhecia naquele ambiente.

- Aqui está a torrada senhor. E o mundo - Diz, envergonhada - Está todo ele à sua volta, abra bem os braços e talvez consiga um grande pedaço dele.

O homem saca do seu pequeno caderno e começa a rabiscar. A jovem fica paralisada observando novamente aquela energia que lhe tinha hipnotizado anteriormente, causando o mesmo efeito ao ser novamente utilizada pelo misterioso escritor. 

- O que com tanta energia escreve? - Pergunta curiosa - Foi algo que disse? - Fica perplexa ao se realizar que foi depois do que tinha planeado dizer, de forma tão pensada para não desagradar a pessoa que queria impressionar, enquanto barrava a torrada com a manteiga, que ele começou a escrever.

Terminando o pequeno rabisco, fecha o caderno e finalmente quebra o silêncio da pergunta da jovem.

- Sim. Foi algo que disse. Talvez tenha que ouvir gente mais vezes.

- Porque não o faz? - Atreveu-se a perguntar.

- Porque não as consigo ouvir, muitas das vezes. Murmúrios, suplicas, às vezes mesmo gritos, mas poucas vezes oiço as pessoas a falar. Raramente oiço as pessoas mesmo falar, sem as suas máscaras ou trajes encobridores.

- A mim ouve-me? - Deixa-se levar na conversa

- O teu olhar falou muito mais que todas as vozes que já ouvi, mesmo a minha. A empregada envergonha-se e muda de assunto para não perder a graça à frente daquela figura:

- O que tanto escreve nesse seu livro?

- O que não consigo dizer. - Responde, abrindo-o numa página, ficando longos segundos mirando-a.

- Algo que queria dizer agora? - Pergunta apontando para a página aberta.

Responde depois de um longo pensativo suspiro - Qualquer coisa assim. - Diz retomando o olhar à jovem. - Quando acaba o seu turno? - Pergunta, envergonhando a empregada.

- Às 16:00, senhor. Porquê? - Pergunta, mais uma vez corada.

- Podia me ajudar a lê-lo. - Diz de forma amigável - Isto, claro, se não se importar.

- Adorava! - Diz a empregada não medindo as suas palavras.

- Fica combinado - Sorri o homem.

Encontra-se encostado a um muro, fumando e mirando os pássaros voando atarefados entre edifícios e obstáculos como toldos e postes de eletricidade. A jovem aproxima-se, agora sem o avental característico do café, mas sim uma simples camisola de lã verde, com um curto casaco cinzento cobrindo os ombros.

- Estou pronta - Diz avidamente a jovem.

- Vamos - Diz sorrindo, fazendo um gesto à empregada para o acompanhar.

Chegam ao prédio, e sobem devagar as escadas, passando pela idosa que agora recebia convidados, que, pelas interações entre eles, definitivamente eram familiares que não via há muito tempo. Esta pisca o olho ao jovem que ia acompanhado, e este retribui com um sorriso.

- Peço desculpa pelo estado da casa, mas não costumo receber muitas visitas. - Diz, agora um pouco embaraçado ao chegar ao seu quarto.

- Isso é porque não viste ainda a minha! - Responde, agora entrado e observando o pequeno espaço. - Gosto das paredes, sendo claras refletem muita luz! E realmente estava mais iluminado. Também o espaço mais cuidado, mesmo que com a velha mobília, agora não se via pó, nem mesmo no pano do piano, que continuava coberto.

- Hum - Murmura o homem.

- Posso ver o teu bloco de apontamentos? - Pergunta, virando-se para ele depois de tentar decifrar o que se escondia detrás do pano.

- Claro, toma - Entrega-lhe o caderno. Vai folheando, mas não consegue compreender o que está escrito, e pergunta um pouco embaraçada:

- Isto não são palavras, pois não? Mas também não se assemelham a desenhos, ou figuras, que é? - Pergunta, curiosa.

- O que não consigo dizer, não consigo escrever - Responde, sentando-se num banco negro que se encontrava ao fundo da sala.

- E como é que se o lê? 

- Sentindo-o.

- Mas... - Para por um instante.

O quarto parecia florescer de uma vida oculta, cada questão, cada resposta, todo o espaço parecia ficar mais agradável aos olhos, sendo já os livros autênticas obras, as pautas valiosos manuscritos, e uma profunda energia submergia do canto da sala.

- O que é isso aí tapado? - Pergunta a jovem.

- Ha! Um velho piano. Afinei-o antes de tu chegares, mas sou eu quem ainda está com falta de melodia. 

- Posso vê-lo?

E assentindo com a cabeça, retira o agora brilhante pano de cima de um magnifico piano, tão polido que o sol se revia nele.

- Podes me ensinar a tocar? - Perguntou ela, tão maravilhada com o instrumento.

- Hehe, posso tentar, mas mesmo eu preciso de prática, para voltar a manuseá-lo.

- Tentemos os dois - Diz ela aproximando-se do teclado.

Fecharam os olhos, e a melodia fluiu. Era um tom forte, melancólico mas rítmico. O apartamento vibrava cada nota, reflorescendo a cada nova sensação, a cada novo estilo. As mãos mexiam-se agitadas, e quando se tocavam os dois faziam as notas vibrar ainda mais! Tudo parou ali, tudo aconteceu ali, tudo foi dito e ouvido, e toda a música juntou dois seres, e escreveu por um.

O pequeno bloco foi se apagando à medida que toda a melodia saía daqueles dois corpos através do piano. Os dois choravam, os dois riam, os dois saltavam e dançavam e o caderno já nada possuía. 

Caíram exaustos, um sobre o outro, e ali se amaram, ali se conheceram, ali tanto disseram, não por palavras, mas pela música que lhes vibrava ainda no coração, com a última nota sendo prolongada muito depois de largado o teclado.

No dia seguinte, o misterioso músico olha ao redor do seu apartamento, sente-se bem, sente-se vivo. Levanta-se, calmamente para não acordar a jovem, e, muito antes do sol nascer.

Entra na casa de banho, lava o rosto, encara-se no espelho, e vê-se a si. Completo.

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